«O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens»
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«Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Mt 23, 12. [...] Imitemos o Senhor, que desceu do céu até ao mais radical abaixamento, para ser depois exaltado, do último lugar até às alturas que Lhe convêm. Descubramos tudo aquilo que o Senhor nos ensina para nos conduzir à humildade.
Acabado de nascer, ei-Lo numa gruta, deitado, não num berço, mas numa manjedoura. Na casa de um artesão e de uma mãe sem recursos, é submisso à Sua mãe e ao esposo desta. Deixou-Se ensinar, ouvindo aqueles dos quais não tinha a menor precisão, interrogando-os de tal maneira que os deixou espantados com a Sua sabedoria. Submete-Se a João e o Senhor recebe o batismo das mãos do servo. Nunca opôs resistência aos que O atacavam, nem recorreu ao Seu poder invencível para se libertar das mãos que O prendiam, antes Se deixou levar como que impotente, e na medida em que tal Lhe pareceu adequado, concedeu poder sobre Si a um poder efêmero. Compareceu perante o sumo sacerdote na qualidade de acusado; levado à presença do governador, submeteu-Se ao juízo deste, e podendo perfeitamente responder aos caluniadores, sofreu as calúnias em silêncio. Coberto de escarros por escravos e servos indignos, foi por fim entregue à morte, a uma morte infamante aos olhos dos homens. E foi assim que decorreu a Sua vida desde o nascimento até ao fim. Mas, depois de tal abaixamento, fez brilhar a Sua glória. [...] Imitemo-Lo a fim de que, também nós, alcancemos a glória eterna.
«Quem for o menor entre vós, esse é que é grande»
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«Vinde», diz Cristo aos Seus discípulos, «e aprendei de Mim», não certamente a expulsar os demônios pelo poder do céu, nem a curar os leprosos, nem a dar luz aos cegos, nem a reanimar os mortos [...]; mas, diz Ele, «aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 28-29). Aí está, efetivamente, o que todos podem aprender e praticar. Fazer revelações e milagres nem sempre é necessário, nem vantajoso para todos, e também não é concedido a todos.
Pois a humildade é a mestra de todas as virtudes, o fundamento inabalável do edifício celestial, o dom próprio e magnífico do Salvador. Aquele que o possui poderá fazer, sem perigo de causar estranheza, todos os milagres que Cristo operou, porque procura imitar o Senhor manso, não na sublimidade dos Seus prodígios, mas na virtude da paciência e da humildade. Em contrapartida, quem se sente impaciente por se impor aos espíritos impuros, por dar saúde aos doentes, por mostrar às multidões sinais maravilhosos, bem pode invocar o nome de Cristo no meio de toda a sua ostentação; mas esse é estranho a Cristo, porque a sua alma orgulhosa não segue o mestre da humildade.
Eis o legado que o Senhor deixou aos Seus discípulos quando do Seu regresso para junto do Pai: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei»; e acrescenta de imediato: «Por isto é que todos conhecerão que sois Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,34-35). É bem certo que, quanto menos mansos e humildes formos, menos cumpriremos este amor.
Renunciar a todos os bens
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Segundo a tradição dos Padres e a autoridade das Sagradas Escrituras, as renúncias são em número de três. […] A primeira diz respeito às coisas materiais; devemos desprezar as riquezas e todos os bens deste mundo. Pela segunda, repudiamos a nossa antiga maneira de viver, os vícios e as paixões da alma e da carne. Pela terceira, distanciamos o nosso espírito de todas as realidades presentes e visíveis, para contemplarmos apenas as realidades futuras e desejarmos apenas as realidades invisíveis. Estas renúncias devem ser observadas em conjunto, como o Senhor ordenou a Abraão quando lhe disse: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai” (Gn 12, 1).
“Deixa a tua terra” – isto é, as riquezas da terra –, disse em primeiro lugar. Em segundo lugar disse: “Deixa a tua família”, isto é, os hábitos e os vícios passados que, agregando-se a nós desde o dia em que nascemos, estão estreitamente unidos a nós por uma espécie de parentesco. E, em terceiro lugar, “Deixa a casa de teu pai”, quer dizer, todas as ligações a este mundo que se apresentam aos nossos olhos. […]
Contemplemos, como diz o Apóstolo Paulo, “não as coisas visíveis, mas as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas” (2 Cor 4, 18) […]; “nós, porém, somos cidadãos do céu” (Fil 3, 20). […] Sairemos, pois, da casa do nosso antigo pai, daquele que era nosso pai segundo o homem velho, desde o dia em que nascemos, desde que “éramos por natureza filhos da ira, como os demais” (Ef 2, 3), e transferiremos toda a nossa atenção, todo o nosso espírito, para as coisas celestes. […] Então, a nossa alma elevar-se-á até ao mundo invisível, pela meditação constante das coisas de Deus e pela contemplação espiritual.
O meu servidor não quebrará a cana fendida, não apagará a mecha que fumega… As nações colocarão a sua esperança no Seu nome
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Quero abrir a boca, irmãos, para vos falar do altíssimo assunto da humildade. E estou cheio de temor, como quem sabe que deve falar de Deus com a língua dos seus próprios pensamentos. Porque a humildade é a roupagem da Divindade. Fazendo-se homem, o Verbo revestiu-se de humildade. Através dela, viveu connosco dentro de um corpo. E todo o que vive na humildade torna-se verdadeiramente semelhante Àquele que desceu das alturas e cobriu a sua grandeza e a sua glória com as vestes da humildade, para que, ao vê-lo, a criação não fosse consumida. Porque a criação não teria podido contemplá-lo se Ele não tivesse tomado sobre si a humildade e não tivesse, assim, vivido com ela. Não teria havido face a face com Ele. A criação não teria ouvido as palavras da sua boca…
Por isso, quando a criação vê um homem revestido da semelhança do seu Mestre, ela o venera e honra, tal como o fez ao Mestre, que viu viver revestido de humildade. Com efeito, que criatura não se deixa enternecer diante do humilde? Contudo, enquanto a glória da humildade não se tinha revelado a todos em Cristo, desdenhava-se desta visão tão cheia de santidade. Mas agora a sua grandeza elevou-se aos olhos do mundo. Foi concedido à criação receber, na mediação do homem humilde, a visão do seu Criador. Por isso, o humilde não é desprezado por ninguém, nem sequer pelos inimigos da verdade. Aquele que aprendeu a humildade é venerado por causa dela, como se tivesse sobre si uma coroa e vestes de púrpura.
Quem se exaltar será humilhado, quem se humilhar será exaltado
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A humildade é uma força secreta que os santos recebem quando levam a cabo toda a ascese da sua vida. Na verdade, esta força só é dada aos que atingem a perfeição da virtude pelo efeito da graça. [...] É a mesma força que receberam os bem-aventurados apóstolos sob forma de fogo. Com efeito, o Salvador tinha-lhes ordenado que não deixassem Jerusalém enquanto não tivessem recebido a força vinda do alto (Act 2, 3; 1, 4). Jerusalém simboliza aqui a virtude. E a força vinda do alto é o Paráclito, isto é, o Espírito Consolador.
Ora, isso é o que a Sagrada Escritura tinha dito: os mistérios são revelados aos humildes (Lc 10, 21). Aos humildes é concedido receber em si este Espírito das revelações que descobre os mistérios. É por isso que alguns santos disseram que a humildade cumula a alma nas contemplações divinas. Portanto, que ninguém imagine que atingiu a medida da humildade só porque em certo momento lhe ocorreu um pensamento de compunção, ou porque derramou algumas lágrimas. [...] Mas se um homem venceu todos os espíritos adversos [...], se derrubou e submeteu todas as fortalezas dos inimigos e se, então, sentiu que recebeu essa graça, quando «o Espírito der testemunho ao seu espírito», como diz o apóstolo Paulo (Rom 8, 16), aí temos a perfeição da humildade. Bem-aventurado aquele que a possui. Porque em todo o momento abraça o seio de Jesus (cf Jo 13, 25).
Quem se humilha será exaltado
Há uma humildade que vem do medo de Deus e há uma humildade que vem do próprio Deus. Há aquele que é humilde porque tem medo de Deus e o que é humilde porque conhece a alegria. Um deles, o que se humilhou porque teme a Deus, recebe a doçura no seu corpo, o equilíbrio dos sentidos e um coração permanentemente controlado. O outro, o que é humilde porque conhece a alegria, recebe uma grande simplicidade e um coração dilatado que já nada pode prender.
A providência de Deus, que vela para dar a cada um de nós o que mais lhe convém, tudo dispôs para nos conduzir à humildade. Porque, se te orgulhas com as graças da providência, esta abandona-te e voltas a cair. [...] Recorda, pois, que não é por ti, nem pela tua virtude, que resistes às más tendências, mas que apenas a graça que te sustenta, para que não temas. [...] Geme, chora, recorda-te dos teus pecados no tempo da prova, a fim de seres libertado do orgulho e de adquirires a humildade. Mas não desesperes. Pede humildemente a Deus que te perdoe os teus pecados.
A humildade, também nas obras, apaga muitos pecados. Pelo contrário, sem ela, as obras de nada servem, chegando mesmo a atrair males sobre nós. Obtém pois, pela humildade, o perdão das tuas injustiças. A humildade está para a virtude como o sal para os alimentos; a humildade destrói a força de numerosos pecados. [...] Se a possuirmos, fará de nós filhos de Deus, conduzindo-nos a Deus mesmo sem o socorro das boas obras. É por isso que, sem ela, todas as obras são vãs, como vãs são todas as virtudes e todas as dores.Cria em mim, ó Deus, um coração puro (Sl 50,12)
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Está dito que só a ajuda de Deus salva. Quando um homem sabe que não há mais nenhum socorro, reza muito. E, quanto mais reza, mais o seu coração se torna humilde, porque não se pode rezar e pedir sem se ser humilde. “Não desprezarás, ó Deus, um coração oprimido e humilhado” (Sl 50,19). Com efeito, enquanto o coração não se torna humilde, é-lhe impossível escapar à dispersão; a humildade faz o coração virar-se sobre si mesmo.
Quando o homem se torna humilde, imediatamente a compaixão o envolve e o seu coração sente então o socorro divino. Descobre que nele sobe uma força, a força da confiança. Quando o homem sente assim o socorro de Deus, quando sente que Ele está ali e vem em sua ajuda, imediatamente o seu coração fica cheio de fé e compreende então que a oração é o refúgio do socorro, a fonte da salvação, o tesouro da confiança, o porto livre da tempestade, a luz dos que estão nas trevas, o amparo dos fracos, o abrigo no tempo da provação, a ajuda no auge da doença, o escudo que defende nos combates, a flecha lançada contra o inimigo. Numa palavra, a abundância dos bens entra nele pela oração. Doravante tem as suas delícias na oração da fé. O seu coração irradia confiança.
Fora de mim, nada podeis fazer
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Os apóstolos viram o Senhor na sua glória quando ele foi transfigurado sobre o Monte Tabor; mas, mais tarde, na hora da sua paixão, eles fugiram com medo. Tal é a fragilidade do homem. Em verdade, somos bem desta terra; mais: desta terra pecadora. Por isso o Senhor disse: «Sem mim, nada podeis fazer». E é mesmo assim. Quando a graça está em nós, somos verdadeiramente humildes; então a nossa inteligência é mais viva, e somos obedientes, doces, agradáveis a Deus e aos homens. Mas quando perdemos a graça, secamos como um sarmento cortado da videira. Se alguém não ama o seu irmão pelo qual o Senhor morreu no meio de grandes sofrimentos, é porque está separado da Videira. Mas aquele que luta com o pecado será suportado pelo Senhor, como a cepa suporta o sarmento.
Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito
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O Senhor ama os homens, mas fá-los passar por provações. Assim, eles poderão reconhecer a sua própria impotência e humilhar-se e, graças à humildade, receber o Santo Espírito. E com o Santo Espírito tudo está bem, tudo se enche de alegria [...] Aquele que vive em humildade contenta-se com tudo o que lhe acontece, porque o Senhor é a sua riqueza e alegria; todos os homens se espantarão com a beleza da sua alma. Dizes: «A minha vida está cheia de sofrimento». Mas responder-te-ei, ou melhor, é o próprio Senhor a dizer-te: «Sê humilde, e verás que as provações se transformarão em repouso», de tal maneira que tu próprio te espantarás e dirás: «Por que estava eu, antes, tão atormentado e aflito?» Agora és feliz porque te tornaste humilde e porque a graça divina veio até ti; agora, ainda que estejas só na pobreza, a alegria não te deixará, porque tens na alma aquela paz acerca da qual disse o Senhor: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz» (Jo 14,27). É assim que o Senhor dá a paz às almas humildes.
A Fé, se a deixásseis inchar como um grão de mostarda
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Antigamente eu pensava que o Senhor só realizava milagres em resposta às preces dos santos, mas agora compreendi que o Senhor também faz milagres ao pecador, quando a sua alma se humilha; pois, assim que o homem aprende a humildade, o Senhor escuta as suas preces.
Muita gente diz, por inexperiência, que tal santo fez um milagre, mas eu percebi que é o Espírito Santo que habita o homem quem realiza os milagres. O Senhor quer que todos sejam salvos e vivam eternamente com Ele, e é por isso que escuta as preces que o homem pecador lhe dirige para o bem dos outros e para o seu próprio bem.
O que discutíeis vós pelo caminho?
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Ó humildade de Jesus Cristo! Dás uma alegria indescritível à alma. Tenho sede de Ti, porque em ti a alma esquece a terra e eleva-se mais ardentemente para Deus. Se o mundo compreendesse o poder das palavras de Cristo: «Aprendam de mim a doçura da humildade» (Mt 11,29), deixaria de lado qualquer outra ciência, para adquirir esse conhecimento celeste. Os homens não conhecem a força da humildade de Cristo; e desejam as coisas da terra. Mas o homem não pode chegar ao poder destas palavras do Senhor sem o Espírito Santo. Quem os penetrou nunca mais os abandona, mesmo se todos os tesouros do mundo lhe fossem oferecidos… Aquele que saboreou este amor de Deus infinitamente doce não pode pensar mais nas coisas da terra; sente-se atraído sem cessar por esse amor. Mas nós perdemo-lo pelo nosso orgulho e pela nossa vaidade, pelas nossas inimizades e pelos nossos juízos em relação aos irmãos; abandonamo-lo pelos nossos pensamentos cúpidos e pela nossa propensão para a terra. Então a graça abandona-nos, e a alma perturbada, deprimida, deseja Deus e chama-O, como Adão expulso do Paraíso. A minha alma definha e busco-Te em lágrimas! Vê a minha aflição, ilumina as minhas trevas para que a minha alma esteja em alegria! Senhor, dá-me a Tua humildade, para que o Teu amor esteja em mim, e em mim viva o Teu temor.
Quem se despreza a si mesmo, neste mundo assegura para si a vida eterna
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(Jo 12, 25)
Quem ama a sua própria vida (Jo 12, 25) não pode amar a Deus, mas quem não se apega a si mesmo por causa das riquezas transbordantes do amor divino, esse ama a Deus. Uma pessoa assim jamais procura a própria glória, mas a de Deus, porque quem ama a própria vida procura a própria glória. Aquele que se dedica a Deus ama a glória do Criador. Na verdade, é próprio de uma alma sensível ao amor de Deus procurar constantemente a Sua glória, cumprindo os mandamentos, e alegrando-se com a sua própria depreciação. Porque a glória convém a Deus devido à Sua grandeza, e a humildade convém ao homem porque o torna da família de Deus. Se formos humildes seremos alegres e, à semelhança de São João Batista, passaremos a repetir sem cessar: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3, 30).
Adão, onde estás?
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(Gn 3,9): responder aos apelos do Senhor
A minha alma anseia pelo Senhor e eu procuro-o com lágrimas. Como poderia não te procurar? Tu foste o primeiro a encontrar-me. Tu permitiste-me que vivesse a doçura do teu Espírito Santo e a minha alma amou-te. Tu vês, Senhor, o meu sofrimento e as minhas lágrimas. Se não me tivesses atraído com o teu amor, eu não te procuraria como te procuro. Mas o teu Espírito fez-me conhecer-te e a minha alma alegra-se por tu seres o meu Deus e o meu Senhor e, até às lágrimas, anseio por ti…
Senhor misericordioso, tu vês a minha queda e a minha dor; mas, humildemente, imploro a tua clemência: derrama sobre o pecador que eu sou a graça do teu Espírito Santo. A sua lembrança leva o meu espírito a encontrar de novo a tua misericórdia. Senhor, dá-me o teu humilde Espírito para que eu não perca de novo a tua graça e não me lamente como Adão que chorava a separação de Deus e o Paraíso perdido.
O Espírito de Cristo, que o Senhor me deu, quer a salvação de todos, deseja que todos conheçam Deus. O Senhor deu o Paraíso ao ladrão; dá-lo-á também a todos os pecadores. Pelos meus pecados, sou pior do que um cão tinhoso mas pus-me a pedir ao Senhor que mos perdoasse e ele concedeu-me, não só o seu perdão, como o próprio Espírito Santo. E, no Espírito Santo, conheci Deus…
O Senhor é misericordioso; a minha alma sabe-o mas descrevê-lo é impossível. Ele é infinitamento manso e humilde e a minha alma, quando o vê, transforma-se toda ela em amor a Deus e ao próximo; torna-se ela mesma mansa e humilde. Mas, se o homem perder a graça, chorará como Adão quando foi expulso do Paraíso… Dá-nos, Senhor, o arrependimento de Adão e a tua santa humildade.
Ai de vós, fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas
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A alma do homem humilde é como o mar; quando atiramos uma pedra ao mar, a pedra agita a superfície das águas durante uns instantes, mas em seguida mergulha nas profundezas. Assim são absorvidas as dores no coração do homem humilde, porque a força do Senhor está com ele.
Onde habitas tu, alma humilde? Quem vive em ti? E a que posso eu comparar-te? Resplandeces, brilhante como o sol, mas não te consomes, apesar de arderes (Ex 3, 2), e aqueces todos os homens com o teu ardor. A ti pertence a terra dos mansos, nas palavras do Senhor (Mt 5, 4). És semelhante a um jardim florido, ao fundo do qual se encontra uma casa magnífica, onde o Senhor gosta de repousar.
Amam-te o céu e a terra. Amam-te os santos apóstolos, os profetas, os santos e os bem-aventurados. Amam-te os anjos, os serafins, os querubins. Ama-te, na tua humildade, a puríssima Mãe do Senhor. Ama-te o Senhor, que rejubila em ti.
O discípulo bem formado será como o seu mestre
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“O discípulo não está acima do mestre. Será perfeito se for como o mestre”. Os bem-aventurados discípulos estavam destinados a tornar-se os guias e os mestres espirituais da terra inteira. Deviam assim dar provas, mais do que quaisquer outros, de um visível fervor, estar familiarizados com a maneira de viver segundo o Evangelho e dispostos a praticar qualquer boa obra. Teriam de transmitir àqueles que instruissem a doutrina exacta, salutar e estritamente conforma à verdade, depois de primeiramente a terem contemplado e deixado a luz divina iluminar a sua inteligência. Sem isso, seriam cegos a conduzir outros cegos. Porque os que estão mergulhados nas trevas da ignorância não podem conduzir ao conhecimento da verdade os homens que sofrem essa mesma ignorância. Aliás, quereriam eles que caissem todos juntos no abismo das suas más tendências?
Foi por isso que o Senhor quis parar a inclinação para a vanglória que se encontra em tantas pessoas e dissuadi-las de rivalizar com os seus mestres para ultrapassarem a reputação deles. Disse-lhes: “O discípulo não está acima do mestre”. Mesmo se acontecer a alguém atingir um grau de virtude igual à dos predecessores, deverá sobretudo imitar a modéstia deles. Paulo dá-nos uma prova disso quando diz: “Mostrai-vos meus imitadores, como eu próprio o sou de Cristo” (1 Co 11,1).
Se é assim, porque julgas, se o Mestre não julga ainda? Porque ele não veio para julgar o mundfo (Jo 12,47), mas para lhe trazer a graça… “Se eu não julgo, disse ele, não julgues também tu, que és meu discípulo. Pode acontecer que sejas mais culpado do que aquele que estás a julgar… Porque reparas na palha que está no olho do teu irmão?”.
Somos servos inúteis
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Eu, que, de início, não era mais do que um fugitivo frustre e sem instrução e que “não sei prever o futuro” (Qo 4,13 Vulg), sei, no entanto, uma coisa com toda a certeza: é que, “antes de ser humilhado” (Sl 118,67), eu era como uma pedra que jazia numa lama profunda. Mas Ele veio, “aquele que é poderoso” (Lc 1,49) e agarrou em mim na sua misericórdia; ergueu-me verdadeiramente bem alto e colocou-me em cima do muro. Por isso, eu tenho de elevar a voz com toda a força, a fim de devolver qualquer coisa ao Senhor em troca dos seus benefícios, tanto aqui em baixo como pela eternidade, benefícios tão grandes que o espírito dos homens não pode enumerar.
Ficai, pois, em admiração, “grandes e pequenos que temeis a Deus” (Ap 19,5); e vós, senhores e bem-falantes, escutai e examinai com atenção. Quem foi que me ergueu, a mim, o insensato, de entre os que passam por sábios, peritos da lei, “poderosos em palavras” (Lc 24,19) e em todas as outras coisas? Quem foi que me inspirou, mais do que aos outros, a mim, o rebotalho deste mundo, a fim de que “no temor e no respeito” (He 12,28)… eu faça lealmente bem aos povos a quem o amor de Cristo me conduziu e me entregou para, se for digno disso, os servir toda a minha vida com humildade e verdade?
É por isso que, “segundo a medida da minha fé” (Rm 12,6) na Trindade, eu tenho de reconhecer e… proclamar o dom de Deus e a sua “eterna consolação” (2Tes 2,16). Tenho que espalhar sem temor mas com confiança o nome de Deus por toda a parte para que, mesmo após a minha morte, eu deixe uma herança aos meus irmãos e aos meus filhos, a tantos milhares de homens que baptizei no Senhor.
E quem der de beber a um destes pequeninos
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«E quem der de beber a um destes pequeninos [...], por ser meu discípulo, [...] não perderá a sua recompensa.»
Vede: eu encomendo a minha alma ao Criador, que é fiel (1Pe 4, 19), de Quem «eu sou embaixador» (Ef 6,20), apesar da minha baixeza; porque Ele não faz acepção de pessoas e escolheu-me para este serviço, para que seja Seu servo, a mim, um dos Seus «irmãos mais pequeninos» (Mt 25,40). «Como retribuirei ao Senhor todos os Seus benefícios para comigo?» (Sl 115,12). Mas que posso eu dizer ou prometer a meu Senhor, visto não ter mais capacidades para além das que Ele próprio me deu?
Que, por vontade de Deus, nunca me aconteça perder o povo que Ele formou para si nos confins da terra! (Is 43,21) Peço a Deus que me dê a perseverança e a vontade de dEle dar sempre um testemunho fiel, até ao dia da minha partida. Se me acontecer realizar uma boa obra para o meu Deus, que tanto amo, peço-Lhe que me conceda derramar o meu sangue com os estrangeiros e cativos, em honra do Seu nome [...]. Tenho a certeza de que, se tal me acontecesse, ganharia como recompensa a minha alma com o meu corpo, pois nesse dia ressuscitaremos sem dúvida na claridade do sol, isto é, na glória de Cristo Jesus, nosso Redentor [...].
Dirijo uma prece aos homens crentes e tementes a Deus que se dignarem acolher este escrito que Patrício, um tão ignorante pregador, compôs em terras da Irlanda: se alguma coisa fiz ou disse de acordo com a vontade de Deus, ninguém diga que foi este ignorante quem a fez, antes pensai – e tende-o mesmo por certo – que tal foi um verdadeiro dom de Deus. Esta é a minha confissão antes de morrer.
Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos
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Há quem se deixe abater pela dúvida ao ver no corpo de Cristo os estigmas da Paixão, e se pergunte: «Quem é este rei glorioso?» (Sl 23, 8). Responde-lhes que é o Cristo, «forte e poderoso» (v.8) em tudo quanto fez e continua a fazer. [...] Faz-lhes ver a beleza da túnica envergada que é o corpo sofredor de Cristo, embelezado pela Paixão e transfigurado pelo brilho da divindade, essa túnica de glória que foi o objecto mais belo e mais digno de ser amado neste mundo. [...] Ele será pequeno pelo facto de Se ter feito humilde por tua causa? Será desprezível pelo facto de, Bom Pastor que dá a vida pelo Seu rebanho (Jo 10, 11), ter ido à procura da ovelha perdida e, depois de a ter encontrado, a ter posto aos ombros que por ela carregaram com a cruz e a ter contado de novo entre o número das ovelhas fiéis que permaneceram dentro do aprisco (Lc 15, 4ss.)? Parece-te menos grandioso por Se ter cingido com uma toalha para lavar os pés aos discípulos, mostrando-lhes assim que o meio mais seguro de a pessoa se elevar é humilhando-se (Jo 13, 4; Mt 23, 12)? Porque, inclinando a alma para a terra, Se abaixa a fim de elevar Consigo aqueles que viviam abatidos sob o peso do pecado? Censuras-Lhe o facto de ter comido com os publicanos e os pecadores, para salvação deles (Mt 9, 10)?
Ele conheceu a fadiga, a fome, a sede, a angústia e as lágrimas, seguindo a lei da nossa natureza humana. Como Deus, porém, o que não fez? [...] Precisávamos de um Deus feito homem, tornado mortal, para podermos viver. Partilhámos a Sua morte, que nos purifica; pela Sua morte, Ele deu-nos a partilhar a Sua ressurreição; pela Sua ressurreição, deu-nos a partilhar a Sua glória.
«O próprio David chama-Lhe Senhor»
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Presta atenção ao mistério de Cristo! Ele nasceu do seio da Virgem, quer como Servo quer como Senhor; Servo para executar, Senhor para mandar, para enraizar no coração dos homens um Reino para Deus. Ele tem uma dupla origem, mas é um só ser. Não é um quando vem do Pai e outro quando vem da Virgem. Ele é o mesmo, nascido do Pai antes de todos os séculos, que encarnou pela Virgem no tempo. Eis a razão pela qual é chamado Servo e Senhor: Servo por nossa causa; mas, devido à unidade da substância divina, Deus de Deus, Príncipe dos Príncipes, Filho igual em tudo ao Pai, Seu igual. O Pai não criou um Filho estranho a Si mesmo, este Filho sobre quem declarou: «N’Ele pus todo o Meu agrado» (Mt 3, 17). [...]
O servo mantém sempre os títulos da sua dignidade. Deus é grande, e grande é o Seu servo: ao tomar carne, Ele não perde esta «grandeza que não tem limites» (Sl 144, 3). [...] «Ele, que era de condição divina, não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-Se a Si mesmo tomando a condição de servo» (Fil 2, 6-7). [...] Ele é portanto igual a Deus, como Filho de Deus; tomou a condição de Servo ao encarnar; experimentou a morte (Heb 2, 9), Ele cuja «grandeza não tem limites». [...]
É boa, esta condição de servo, que nos libertou a todos! Sim, é boa! Ela valeu-Lhe «o nome que está acima de todo o nome»! É boa, esta humildade! Ela conseguiu que «ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre, nos céus, na terra e nos infernos e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para glória de Deus Pai» (Fil 2, 10-11).
“Eis o meu servidor”
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No decorrer da refeição, Jesus levantou-se da mesa e despojou-se das suas vestes tomando uma aparência de escravo, como o mostram estas palavras: “Ele tomou uma toalha e cingiu-a à cintura”, para não estar completamente nu e para enxugar os pés dos seus discípulos com a sua própria toalha (Jo 13, 2-5). Vede a que ponto se abaixou a grandeza e a glória do Verbo feito carne; para lavar os pés dos seus discípulos: “Ele deita água numa bacia”. “Abraão elevou os olhos e viu uns homens de pé em frente dele. Da porta da sua tenda, correu ao seu encontro e prostrou-se por terra dizendo: ‘Senhor, se encontrei graça diante de ti, não passes adiante sem parar em casa do teu servidor’” (Gn 18, 2-3) Mas Abraão não toma ele próprio a água e não declara que vai lavar os pés dos estrangeiros, porque eles vieram a sua casa, mas diz: “Tragam água e lavem-lhes os pés”. José também não trouxe água para lavar os pés dos seus onze irmãos, mas foi o seu intendente que “lhes trouxe água para lavarem os pés” (Gn 43,24). Mas aquele que declarou: “Eu vim não para ser servido mas para servir” (Lc 22,27) e disse com autoridade: “Aprendei de mim que sou doce e humilde de coração” (Mt 11,29), deita ele próprio a água na bacia. Sabia que ninguém, salvo ele, podia lavar ao pés dos seus discípulos para que esta purificação lhes permitisse ter parte com ele. A água, penso eu, era uma palavra capaz de lavar os pés dos discípulos, quando eles se aproximassem da bacia colocada lá para eles por Jesus.
«Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau»
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A Lei dizia: «Olho por olho, dente por dente» (Ex 21,24). Mas o Senhor exorta-nos, não somente a recebermos com paciência a bofetada de quem a dá, mas ainda a apresentar-lhe humildemente outra face. A intenção da Lei era ensinar-nos a não fazer o que não queríamos sofrer. Por conseguinte, impedia-nos de fazer o mal pelo medo de sofrer. Mas o que é pedido agora é que rejeitemos o ódio, o amor ao prazer, o amor à glória e as outras más tendências. [...]
Cristo ensina-nos, pelos santos mandamentos, como nos purificarmos das nossas paixões, para que não nos façam recair de novo nos mesmos pecados. Mostra-nos a causa que nos leva ao desprezo e à transgressão dos preceitos de Deus; fornece-nos também o remédio, de modo que possamos obedecer e ser salvos.
Qual é então este remédio e qual é a causa deste desprezo? Escutai o que diz Nosso Senhor: «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito» (Mt 11,29). Eis que, numa só palavra, Ele mostra-nos a raiz e a causa de todos os males, bem como o seu remédio, fonte todos os bens. Mostra-nos que é o orgulho que nos faz cair, e que é impossível obter misericórdia se não pela disposição contrária, que é a humildade. De facto, o orgulho gera o desprezo e a desobediência que leva à morte, enquanto a humildade leva à obediência e à salvação das almas; refiro-me à verdadeira humildade, não apenas de palavras e de atitudes, mas a uma disposição realmente humilde, no íntimo do coração e do espírito. É por isso que o Senhor diz: «Sou manso e humilde de coração». Aquele que quer encontrar o verdadeiro descanso para a sua alma aprenda então a humildade..
Doroteu de Gaza (c. 500-?), monge na Palestina
Instruções, n° 1, 6-8 (trad. SC 92, p. 155 rotação)
Fonte: Evangelho Cotidiano
Instruções, n° 1, 6-8 (trad. SC 92, p. 155 rotação)
Fonte: Evangelho Cotidiano