IHU - Nunca se tinha assistido ao espetáculo de dois pontífices romanos
que permanecem em contato entre si, que colaboram, que aceitam carregar
juntos o peso do "ministério petrino", embora não o carregando em
partes iguais.
A opinião é do historiador italiano Franco Cardini, professor do Istituto Italiano di Scienze Umane (Sum) e membro do conselho científico da Escola Superior de Estudos Históricos de San Marino. O artigo foi publicado no jornal Europa, 11-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Já estamos acostumados. Passamos os primeiros momentos de escândalo, de desorientação, de perplexidade, e à parte dos netos de Tertuliano
para os quais tudo o que acontece de novo é um sinal claro do "começo
do fim", aceitamos bastante tranquilamente que, na Igreja romana,
existem e coexistem dois papas: um efetivo e um emérito (não deposto,
nem resignado, nem abdicante).
Por outro lado, uma vez descartada a ideia de que tudo isso é algo de
excepcional, de inédito e de inadmissível, é preciso também refletir
sobre uma grande, importante e significativa novidade que não representa
em nada uma manobra mais ou menos desajeitada que visa a resolver a
delicada situação que ocorreu há um ano, em fevereiro de 2013, com
aquela que, impropriamente, alguns definiram como "a Grande recusa" de Bento XVI.
Dois papas, e talvez até três, na história da Cristandade latina
muitas vezes correinaram sobre a Igreja: mas se tratava de pontífices
adversários e concorrentes entre si, em tempos de cisma, e, nesse
propósito, não era uma escolha feliz definir um dos dois como "antipapa"
(uma figura e um ofício que nunca existiram na Igreja: e uma palavra
ofensiva cunhado em analogia ao termo "Anticristo"): nunca se tinha
assistido ao espetáculo de dois pontífices romanos que permanecem em
contato entre si, que colaboram, que, em suma, aceitam carregar juntos o
peso do "ministério petrino", embora não o carregando em partes iguais.
Dois papas, no entanto, é preciso dizer, muito diferentes entre si: por
extração, por formação, por endereço e sensibilidade no plano
propriamente eclesiológico e pastoral.
Estamos diante da perpetuação de uma situação equívoca, sinal
remanescente de discórdia no seio da cúpula da Igreja que ainda não se
teria aplacado? Não propriamente, deixando claro que a Igreja ainda está
ameaçada por dois tipos diferentes de cisma: um entre os cardeais, que
se refletiria sobre toda a comitiva do "Povo de Deus"; e um, aquele já
assinalado por personagens diferentes entre si como Pietro Prini ou Riccardo Chiaberge,
que é o "cisma submerso", por força do qual a hierarquia católica
dirige e dispõe, mas os fiéis se dividem entre aqueles que não são mais
praticantes, observantes, e aqueles que, ainda o sendo (e talvez
justamente por serem-no), no entanto, nem sempre estão dispostos a
obedecer.
E passamos das inquietas faixas de "extrema direita" e de "extrema esquerda" (pitorescamente representadas, por exemplo, em Gênova, pelas inclinações contrapostas dos nostálgicos do cardeal Siri e de Baget Bozzo, e dos do Pe. Gallo) até aqueles que consideram como não válida a missa celebrada segundo a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, ou aos "sedevacantistas", para os quais, depois de Pio XII, todas as eleições para a cátedra de Pedro seriam consideráveis como inválidas.
O ponto é que a Igreja Romana muda, mesmo que em uma continuidade
que, ao menos desde o século IV, é reconhecida por muitos. E que ela
enfrentou várias "reformas", dentre as quais duas – o do século XI e a
do século XVI, que alguns preferem chamar de "Contrarreforma" – foram no
mesmo sentido da transformação de uma realidade hierárquica de
estrutura federal em outra, ao contrário, em estrutura piramidal,
culminando em uma instituição monárquica.
A Igreja se distingue no "clero", detentor da autoridade e guardião
do tesouro sacramental, e o "povo". Tem-se acesso ao clero através de
ordens iniciáticas (canonisticamente falando, sete) em cuja cúpula estão
os "presbíteros", os sacerdotes.
Ela está ordenada em províncias eclesiásticas e em dioceses, e à
frente de cada uma há um governador-supervisor-coordenador, o "bispo".
Hierarquicamente falando, nenhum grau é superior ao do bispo: o próprio
papa outra coisa não é do que o bispo de Roma. Antiquíssimo órgão de governo da Igreja é o concílio, ou seja, a periódica reunião dos bispos.
Mas, na Igreja latina, as funções do concílio foram, em diversas
ocasiões e progressivamente, assumidas pelo "papa", pelo bispo de Roma,
que, especialmente, a partir do século XI, criou-se uma corte própria
de representação e de governo, a Cúria, enquanto a instituição de uma
função nova, a de "cardeal", cumpria a função de munir essa corte de
verdadeiros "príncipes eleitores", aos quais era demandada a escolha do
novo papa na morte do anterior.
Mas, com o tempo e, principalmente, na primeira metade do século XV,
foram fortes as reivindicações de quem pediu, e teorizou, um retorno da
Igreja a uma condução federal e, portanto, à soberania do concílio com
relação à do pontífice romano.
Derrotadas duramente na metade do século XV – especialmente pelo ex-conciliarista Enea Silvio Piccolomini, que se tornou o autocrático Pio II –, as reivindicações conciliares renasceram na segunda metade do século XX com o Vaticano II. E hoje continuam fortes.
Goste-se ou não, embora ainda não se fala a respeito no nível das mídias, o ponto é esse. Bento XVI,
em fevereiro do ano passado, foi embora por não ser mais capaz de gerir
e conter as correntes diversas e adversas entre si dentro do Sacro Colégio Cardinalício, do corpo episcopal e dos próprios "clero e povo": em suma, de todos os membros da Igreja.
O brevíssimo conclave no qual foi eleito um jesuíta argentino já
muito votado no conclave anterior teve o caráter de um evento
claríssimo, transparente, que só quem não queria entender, fingiu não
entender.
Com Francisco, foi a ala reformista do alto clero –
com todos os seus defensores abaixo – que venceu: foi a ala que quer
marchar sobretudo rumo à unidade com as principais Igrejas cristãs (cujo
principal obstáculo é o "primado de Pedro", a autoridade monárquica do papa, a menos que ela se reduza à auctoritas de um primus inter pares)
e optar, portanto, pelo campo conciliar; mas que, também e acima de
tudo, pretende proclamar em voz alta que o seu lugar é ao lado dos
"últimos da terra".
Ao lado de todos os "últimos": dos pobres, dos deserdados, dos
discriminados por qualquer motivo (e eis o problema da
homossexualidade), das crianças que correm o risco de não nascer por
serem mortas pelo egoísmo ou pelo medo das suas próprias mães.
Não é uma batalha fácil: e é inútil tentar reconduzi-la aos velhos
parâmetros da "direita" e da "esquerda", da "tradição" e do "progresso",
porque as características de todas essas antigas fronteiras já se
chocaram, confundiram e dissolveram.
Eis a razão íntima e última da coexistência de dois bispos de Roma.
Já é um dado velho e que não escandaliza ninguém o fato de que também
existam, ao lado dos bispos no cargo, bispos eméritos: a diocese de Roma
não pode ser uma exceção, na medida em que o papa não pode não ser
gradualmente reconduzido às suas funções ordinárias de bispo, mesmo que
de uma diocese especial e investida, portanto, de prerrogativas
particulares (o Vaticano, como Estado soberano, dota a Igreja de Roma de
um instrumento precioso para ela, a independência dos poderes
seculares: e ela não renunciará a isso). Mas é um sinal epocal que a
diocese romana seja considerada como uma diocese como as outras, à parte
de sua autoridade específica.
Estamos apenas no início das mudanças. O próximo movimento desse
pontífice – ou do seu sucessor, se este não viver o suficiente – será a
convocação de um novo concílio que terá, com relação ao Vaticano II, a mesma função dialética que este teve com relação ao Vaticano I.
Quem elegeu transmitiu-lhe tal mandato, embora ninguém jamais o tenha
explicitado. Não ainda: até que os tempos não estejam maduros.
A Igreja Católica conheceu 21 concílios ecumênicos, o de Niceia, em 325, ao Vaticano II: mas quase a metade deles pertence à Alta Idade Média.
Do século XII ao século XIV, com a afirmação da autoridade monárquica
pontifícia, só sete. Outros três entre os séculos XV e XVI, com a crise e
a reafirmação da monarquia papal. E o de Trento, em meados do século XVI, depois do qual não houve mais concílios até o Vaticano I, em 1870.
Quase um século passou entre o Vaticano I (que confirmou e reforçou a autoridade pontifícia enraizada no tridentino) e o Vaticano II,
cujo resultado pareceu ambíguo demais a muitos no plano teológico e
litúrgico, sem contar no pastoral. Depois, meio século se passou entre o
Vaticano II e hoje. Nesse meio século, a Modernidade entrou em crise, e
a globalização alcançou uma fase com relação à qual a voz clara da
Igreja é indispensável. Os tempos são duríssimos, mas, ao mesmo tempo,
estão maduros.
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