Não há uma forma correta de entendermos a Deus. Ele nos surpreenderá com a intimidade de seu amor.
O pouco que sabemos Dele é graças ao que Jesus nos revelou.
|
Por Dom Eurico dos Santos Veloso*
A parábola do Evangelho do 25º domingo
do Tempo Comum causa surpresa nos que leem a Bíblia pela primeira vez.
Não entendem como Jesus pode colocar como exemplo de comportamento a
injustiça clara praticada pelo proprietário da vinha. É uma norma aceita
em nossos dias que o salário deva corresponder ao trabalho realizado.
Mas é que a parábola não fala disso, mas de Deus e do seu modo de ser.
Então, Deus é injusto? Não paga a cada um de acordo com os seus
trabalhos?
As palavras finais da parábola nos
permitem entender o sentido de toda a narrativa. São as que o dono da
vinha dirige aos trabalhadores que protestam por terem recebido menos do
que o esperado: "Estás com inveja porque eu sou bom?" De alguma forma,
são palavras que Deus dirige a cada um de nós. É uma frase que vai desde
a imensidão do ser de Deus até a pequenez de nosso ser criaturas.
Denuncia a nossa ânsia de manipular Deus, de querer que Ele atue e seja
como nós pensamos que deva agir e ser. Quantas vezes na história não
fizemos Deus abençoar guerras e vinganças?
Essa parábola insinua que não temos
muita ideia de como Deus é. O pouco que sabemos dele é graças ao que
Jesus nos revelou. E o que Jesus nos diz é que é um Pai, ou melhor, um
papai – isso é o que significa Abá. Deus nos quer bem e olha sempre com
olhos de carinho e misericórdia. Mas, além disso, sabemos muito pouco ou
nada. Como diz a primeira leitura, “Estão meus caminhos tão acima dos
vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto
está o céu acima da terra”.
Não há uma forma correta de podermos
entender a Deus, introduzi-lo em nossa mente e expressá-lo em nossas
categorias e formas de falar. Deus nos surpreenderá com a intimidade de
seu amor. Por isso, Jesus não encontrou melhor maneira de falar dele que
empregar essas histórias. Dessa forma, por comparação. Poderíamos
vislumbrar um pouco o que é Deus, o amor que nos tem, sua capacidade de
acolhida e sua vontade de nos dar a vida plena. Por isso, Paulo, que
havia aberto totalmente seu coração a Deus, pode dizer: “Para mim, o
viver é Cristo e o morrer é lucro.” Melhor é que não tentemos manipular
Deus e que simplesmente o aceitemos como Ele se revelou em Jesus.
CNBB, 23-09-2014.
*Dom Eurico dos Santos Veloso é arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG).

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Só será aceito comentário que esteja de acordo com o artigo publicado.