sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Negando aquilo que não se pode ignorar

Lei natural, o que é ética, quais os mecanismos teóricos e estruturas racionais que subjazem a este conhecimento, é muito difícil; mas saber, num dado momento, numa situação ordinária da vida, o que é um comportamento ético, é uma tarefa bem simples.

 

Brasília, (Zenit.org)
Por Paulo Vasconcelos Jacobina

Entender o que é lei natural, o que é ética, quais os mecanismos teóricos e estruturas racionais que subjazem a este conhecimento, é muito difícil; mas saber, num dado momento, numa situação ordinária da vida, o que é um comportamento ético, é uma tarefa bem simples. Trata-se simplesmente de entender, de conhecer os fatos e as circunstâncias, que a avaliação moral decorre por conaturalidade.

Uma operação recente da polícia, noticiada em rede nacional, desbaratou uma quadrilha de abortistas. Noticiada como “a maior rede de abortos do país”, a quadrilha contava com cinquenta e sete pessoas envolvidas, das quais nada menos do que seis médicos. As notícias dão conta de procedimentos nos quais médicos e mesmo falsos médicos “matavam crianças como se estivessem sacrificando um bezerro”. Os números são impressionantes: os procedimentos custavam de mil a sete mil e quinhentos reais, e os líderes, que foram qualificados de “açougueiros” pelos policiais, chegaram a reconhecer a existência de cinco milhões de dólares depositados numa conta na Suíça.
A consternação com este caso, que repercutiu nacionalmente, mostra que a consciência humana, ainda que bombardeada com intensa propaganda ideológica, é capaz de reconhecer o bem e o mal, e de alegrar-se com o bem e lamentar o mal, como, no caso concreto, o aborto. Isto me fez lembrar de um artigo que li recentemente, de autoria de um filósofo americano de nome estranho – J. Budziszewski – que escreveu um artigo (e posteriormente um livro) com um nome também curioso: o artigo chama-se Denying what we can't not know; em tradução muito livre, seria algo como “negando o que não se pode ignorar”. É facilmente encontrado na internet.
A tese do autor é simples: partindo dos princípios éticos tradicionais, ele lembra que mesmo um bebê, de algum modo, é atraído pelo seio da mãe, e repelido, por exemplo por ruídos altos. Assim, diz ele, a avaliação moral, no ser humano, é conatural com o conhecimento factual. Buscar o bem e repelir o mal está em nós. Decerto o bebê não tem todas as noções morais, por exemplo falta-lhe a noção moral de que matar alguém é errado. Mas isso não se dá, diz o autor, em razão de uma “relatividade” moral, por exemplo, do ato de matar, mas porque o bebê desconhece tanto a noção de “pessoa” quanto a de “eliminar uma vida”. Vale dizer, tão logo alguém compreenda essas noções, não há maneira, para o ser humano, de não saber, de ignorar que matar é errado, diz Budziszewski. É isso que ele chama de “conhecimento moral por conaturalidade”.
Assim, diz ele, não somente existe algo como “o bem”, que é ontologicamente real, como existe algo como “o discernimento ético do bem”, que decorre do simples domínio, pelo ser humano, dos conceitos envolvidos no conhecimento factual de uma situação. Com isto, diz o autor, não se pode aceitar simplesmente que alguém admita que conhece os conceitos envolvidos numa dada situação, mas desconhece totalmente a avaliação moral desses conceitos. Ele nos desafia a distinguir entre a ignorância, que ele diz ser extremamente rara entre adultos sadios e socializados, e a pura negação, ainda que a negação venha sob alegação, sob o pretexto de ignorância. O autor nos alerta que entender o que é lei natural, o que é ética, quais os mecanismos teóricos e estruturas racionais que subjazem a este conhecimento, é muito difícil; mas que saber, num dado momento, numa situação ordinária da vida, o que é ético, é uma tarefa bem simples. Trata-se simplesmente de entender, de conhecer os fatos e as circunstâncias, que a avaliação moral decorre por conaturalidade.
Com isso, ele nos adverte de que muito facilmente aceitamos alegações de “ignorância moral” que são insustentáveis. Se alguém sabe o que é uma vida humana e sabe o que é o ato de matar, muito facilmente pode deduzir que eliminar a vida de alguém, mesmo a título, por exemplo, de poupá-lo de uma doença terminal, está errado. Não se pode ignorar isto, diz ele. O mesmo ocorre com o aborto: sabendo-se que o bebê existe, está vivo no útero da mãe, constitui um ser diverso da própria mãe, é suficiente para saber razoavelmente que abortar está errado.
Assim, diz ele, é por isso que o grande esforço dos que defendem o aborto não é negar que sabem que, dada a noção de um bebê humano no útero da mãe, e dada a noção de que o aborto elimina a vida deste bebê, isto é errado. Vale dizer, se admitem estes dois conceitos, não podem negar que isto é errado. Não se pode ignorar que, dados tais conceitos, abortar é um ato moralmente execrável. Portanto, quem alega ignorar isto, quem não pode admitir a pura e simples imoralidade do aborto, fica com a missão espinhosa de provar, ou que o embrião não é um ser humano vivo, ou que abortar não é matar. Quando se reconhecem os dois conceitos – “ser humano” e “matar”, a conclusão de que isto é errado virá por conaturalidade.
Assim, os que insistem em defender o aborto negam a humanidade do embrião, ou negam a sinonímia entre aborto e o ato de matar. Porque, dados os dois termos, não há como negar que está errado abortar. Mas uma vez que negam aquilo que não se pode ignorar, causam uma ruptura na sua própria inteireza: comprimem a mola da estrutura moral que o ser humano carrega dentro de si, a mesma estrutura que leva o recém-nascido, naturalmente, a buscar o seio materno e a chorar na presença de ruídos altos. É o mesmo mecanismo que leva a procurar fazer o que está certo e repelir o que está errado.
Ora, apesar da negação, a mola continua existindo, e está comprimida. Como não podem ignorar as consequências morais dos seus atos, mas não admitem para si mesmos que o ato é errado, desencadeiam em si todas as consequências da prática do ato errado, mas negam que essas consequências decorram da prática do próprio ato. A ruptura leva ao mal estar, ao desconforto interior: na impossibilidade de admitir o que não poderiam ignorar, ou seja, o fato de que o seu desequilíbrio interior, o seu desconforto, decorre da própria natureza humana que se viola quando se escolhe o mal em vez do bem, passam a colocar a culpa pela sua dor interior nos ombros daqueles que teimam em afirmar que a sua escolha foi ruim, foi viciada, foi violadora da própria natureza humana que os define, e não poderia nunca trazer a paz. É como se uma criança pudesse rejeitar o seio da mãe em prol de uma garrafa cheia de bebida alcoólica, e depois, entoxicado, culpasse o médico pelo diagnóstico de ressaca.
Este episódio da operação Herodes, que desmontou a quadrilha de abortistas, mostra exatamente isto: não se pode, ao entender o que está em jogo, deixar de aflorar o repúdio à conduta destas pessoas. E este repúdio, diz Budziszewski, decorre da conaturalidade do julgamento moral com a compreensão intelectual do que está em jogo. São indissociáveis. Não se pode, no entanto, sem contaminar a própria inteireza moral do ser humano, imaginar que o aborto possa ser moralmente indefensável para estas pessoas, e ser de algum modo moralmente defensável para os genitores que o praticam. O ato aparente de “tolerância” ou “compreensão” com o alegado “desespero” da mulher que aborta não justifica, em hipótese alguma, o aborto em si.
Acolher a mulher que abortou é um dos maiores deveres cristãos. Dissuadir a mulher que pensa em abortar é um dever ainda maior. Fazer o contrário, justificá-la de algum modo em nome da “fragilidade da mulher”, ou da “pressão social”, é colaborar com a ruptura da integridade existencial dessa mesma mulher: induzi-la ao mal, se ainda não o fez, ou impedir que ela seja resgatada dele, se já o consumou. Esta é a maior consequência que decorre da atitude de quem, no campo da moral, nega aquilo que não se pode ignorar.

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