[unisinos]
"A Igreja ortodoxa definiu este evento, nas diversas línguas do
grego, como um concílio não como um sínodo. Na ortodoxia se impôs o uso
de reservar a palavra 'sínodo' a um conselho episcopal permanente",
escreve Hyacinthe Destivelle, frade dominicano, do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 08-06-2016. A tradução é de Benno Dischinger.
Segundo ele, "Igreja ortodoxa teve o cuidado de designar este concílio como “santo e grande”, e não como “ecumênico”.
Eis o artigo.
De 19 a 26 de junho reunir-se-á o Santo e grande Concílio da Igreja ortodoxa, chamado também Concílio pan-ortodoxo.
A abertura oficial será assinalada por uma concelebração pan-ortodoxa
da divina liturgia eucarística, na catedral de San Minas em Herakilon,
no dia de Pentecostes, celebrada aos 19 de junho segundo o calendário
ortodoxo. Previsto há desde um século, preparado há mais de cinquenta
anos, se trata de um evento histórico não só para a Igreja ortodoxa, mas
também para todo o mundo cristão.
É evidente que convém acima de tudo deter-se no título desta
assembleia. A Igreja ortodoxa definiu este evento, nas diversas línguas
do grego, como um concílio não como um sínodo. De fato, embora os termos
sínodo e concílio sejam sinônimos, na ortodoxia se impôs o uso de
reservar a palavra “sínodo” a um conselho episcopal permanente, o Santo sínodo,
enquanto o termo “concílio” designa geralmente a assembleia de todos os
bispos, em nível tanto regional como universal. Neste caso se trata
propriamente do segundo tipo de assembleia, visto o se alcance, já que
será um concílio da Igreja ortodoxa no seu conjunto. O seu regulamento
será particular: as decisões não provirão do voto de cada bispo, mas do
consenso das Igrejas representadas. Todavia a Igreja ortodoxa teve o
cuidado de designar este concílio como “santo e grande”, e não como
“ecumênico”. Esta escolha, quanto parece, foi motivada por diversas
razões.
Acima de tudo, para a ortodoxia, a ecumenicidade
de um concílio não deriva em primeiro lugar de sua conformidade a
critérios canônicos, ligados à sua convocação ou à sua composição, mas
de sua recepção da parte da Igreja inteira: é, portanto somente a
posteriori que um concílio pode ser reconhecido como ecumênico. Além
disso, o próximo concilio, contrariamente àquele do primeiro milênio,
não enfrentará questões dogmáticas.
Enfim, e sobretudo, a ortodoxia retém que o cisma de 1054 entre a
Igreja de Roma e aquela de Constantinopla impeça que um concílio seja
verdadeiramente ecumênico, enquanto falta a Igreja do Ocidente. É por
isso que a Igreja ortodoxa pôde repreender à Igreja católica chamar
ecumênicos os seus concílios gerais do segundo milênio. Em tal sentido, o
título de Santo e grande concílio é ecumênico precisamente porque a
Igreja ortodoxa não quis, na ausência da Igreja do Ocidente,
atribuir-lhe este título.
Detenhamo-nos, enfim, no terceiro elemento: um concílio “da Igreja
ortodoxa” e não “das Igrejas ortodoxas”. Existem atualmente quatorze
Igrejas ortodoxas de tradição bizantina,
caracterizadas pelo fato de reconhecerem os sete concílios ecumênicos
do primeiro milênio (como a Igreja católica, mas contrariamente às
Igrejas ditas “ortodoxas orientais” de tradição siríaca, copta ou
armena, que reconhecem somente os três primeiros concílios ecumênicos e
por isso são chamadas “pré-calcedonenses”).
Estas Igrejas ortodoxas se definem “autocéfalas” porque cada uma é
presidida pelo próprio primata que tem o título de patriarca, de
metropolita ou de arcebispo. Também se definem como “locais”, porque têm
jurisdição sobre um território determinado. Estas Igrejas têm todas um
lugar preciso na ordem (táxis) das Igrejas, fixado nos dípticos (prece pela Igreja na liturgia eucarística).
Embora sejam autocéfalas, estas Igrejas ortodoxas compartilham entre
elas a plena comunhão nos sacramentos, a unanimidade na mesma fé, a
observância das mesmas regras canônicas fundamentais: formam, portanto
uma só Igreja ortodoxa. O próximo Concílio pan-ortodoxo terá como objetivo próprio aquele de manifestar a unidade destas Igrejas na sua conciliaridade.
Da separação com Roma, o patriarcado de Constantinopla ocupa o
primeiro posto como primus inter pares na ordem destas Igrejas, o que
lhe confere certa precedência nas iniciativas que se referem ao conjunto
das Igrejas irmãs, em particular no que concerne à convocação e à
presidência dos concílios.
Convém, enfim, dizer algumas palavras sobre o termo “pan-ortodoxo”, utilizado também para designar o Concílio que retoma o adjetivo usado para qualificar as conferências inauguradas no início dos anos Sessenta.
Este termo permite compreender melhor a particularidade e o caráter
histórico do próximo evento. De fato, contrariamente a quanto às vezes
se diz, no segundo milênio as Igrejas ortodoxas tiveram muitos concílios
interortodoxos, para enfrentar questões que necessitavam de uma
resposta comum. Podem citar-se em particular os concílios esicastas do
século XVI sobre o ensinamento de Gregório Palamas, o concílio de Iasi, em 1642, que aprovou a profissão de fé do metropolita Pietro Mogila, ou, mais recentemente, o Concílio de Constantinopla,
em 1872 (também este chamado “santo e grande”) que condenou o
etnofiletismo. Mas aqueles concílios não se referem ao conjunto das
Igrejas ortodoxas.
A unidade ortodoxa interessa naturalmente muito os católicos, já que
as dificuldades nas relações entre Igrejas ortodoxas constituem um sério
obstáculo ao diálogo teológico e também ao testemunho comum dos
católicos e dos ortodoxos no mundo. O patriarca ecumênico Bartolomeu,
na sua encíclica do passado dia 20 de março, referente à convocação do
concílio, o confirmou de modo eloquente: “Os tempos são críticos e a
unidade da Igreja deve constituir um exemplo de unidade para a
humanidade lacerada por divisões e conflitos”. Que este Concílio pan-ortodoxo possa, pois, ser verdadeiramente “santo e grande”.

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