Tinha o coração triste, e nada o podia consolar. Com satisfação
trocaria todas as suas riquezas pelos filhos, embora ficasse na miséria,
mas com eles.
Um único filho pequeno lhe restava. Amedrontado com a ideia de perder
também aquele, confiou-o ao abade de um mosteiro, convencido de que só a
intervenção divina poderia conservar-lhe a vida.
O menino cresceu no mosteiro, em meio à dedicação de todos os monges, que gostavam dele e o atendiam.
Sempre alegre, percorria os claustros ou brincava nos jardins, onde
admirava as flores ou comia os frutos que colhia. Ele era o único menino
ali.
Um dia, enquanto tomava sua merenda, entrou pela primeira vez na igreja, impressionando-se com a suntuosidade.
Ficou admirando com grande curiosidade a imagem da Virgem, que tinha
nos braços o Menino Jesus, e alegrou-se por encontrar ali outro menino
como ele.
Parecendo-lhe que o menino devia também ter fome, sem ter o que comer, subiu ao altar e ofereceu sua merenda ao Menino Jesus.
Durante muitos dias continuou levando o seu pão, do qual separava a
melhor parte para dá-la ao Menino Jesus. Ao cabo de um mês, o Filho da
Virgem lhe disse:
— Não comerei mais do teu pão, se não quiseres ir comer comigo e com meu Pai celestial.
O menino ficou muito preocupado com essas palavras, e sem saber o que fazer para ir comer com o Menino Jesus.
Não havia dito nada aos monges, e resolveu contar ao abade o que
tinha feito nos dias precedentes, e que o Menino da Virgem agora se
recusava a comer, até que ele o acompanhasse ao Céu.
O abade pediu-lhe que o deixasse ir em sua companhia, quando fosse
atender ao convite celestial, e que fizesse esse pedido ao Menino seu
amigo.
Naquela mesma tarde reuniu todos os monges e pediu que escolhessem seu sucessor, porque deixaria o cargo.
Todos estranharam aquela decisão e a lamentaram, pois ele
desempenhava muito bem a função, e todos o amavam. Mas não se atreveram a
perguntar-lhe a causa.
À noite todos se recolheram, como de costume, e ao clarear o dia o
abade e o menino se sentiram doentes. A doença se agravou, o médico foi
chamado e diagnosticou em ambos a mesma doença, que era grave.
No mesmo dia morreram, com um sorriso nos lábios e banhados numa luz
celestial, declarando aos monges que atendiam ao chamado para o banquete
divino.
(Fonte: V. Garcia de Diego, “Antología de Leyendas de la Literatura Universal – Labor, Madri, 1953)
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