Parece que o ciúme não é efeito do amor:
- Com efeito, o ciúme é princípio de conflitos, pelo que diz a primeira Carta aos Coríntios: “Já que há entre vós ciúme e conflitos etc.” (3, 3). Ora, conflito é contrário ao amor. Logo o ciúme não é efeito do amor.
- ADEMAIS, o objeto do amor é o bem que é comunicativo de si mesmo. Ora, o ciúme é contrário à comunicação, pois parece ser próprio do ciúme que alguém não sofra a participação no que é amado, como se diz dos maridos que tem ciúme de suas esposas, por não quererem tê-las em comum com outros. Logo, o ciúme não é efeito do amor.
- ALÉM DISSO, não há ciúme sem ódio, como tampouco sem amor, pois, diz o salmo 72: “Tinha ciúme dos iníquos”. Logo, não deve ser considerado efeito mais do amor do que do ódio.
EM SENTIDO CONTRÁRIO, DIZ Dionísio que “Deus é chamado ciumento por causa do muito amor que tem pelo que existe”.
RESPONDO. O ciúme, qualquer que seja o sentido, provém da intensidade do amor. Ora, é evidente que quanto mais intensamente uma potência tende para algo, mais fortemente repele o que lhe é contrário e incompatível. Assim, pois, sendo o amor “um movimento para o amado”, como diz Agostinho, o amor intenso procura excluir tudo o que lhe é contrário.
Isso ocorre e maneira diferente no amor de concupiscência e no amor de amizade. No amor de concupiscência, o que deseja alguma coisa intensamente se move contra tudo o que é contrário à consecução ou fruição tranquila do que é amado. Desse modo diz-se que os maridos tem ciúme de suas esposas, para que a exclusividade que buscam ter delas não seja impedida pela participação de outros. Do mesmo modo também, os que buscam a excelência se movem contra os que são considerados excelentes, como se estes impedissem a excelência deles. E este é o ciúme da inveja, da qual se diz no Salmo 36: “Não tenhas inveja dos maus, nem ciúme dos criminosos”.
O amor de amizade busca o bem do amigo; por isso, quando é intenso leva o homem a mover-se contra tudo o que é contrário ao bem do amigo. E nesse sentido diz-se que alguém tem ciúmes de seu amigo, quando procura rechaçar tudo o que se diz ou faz contra o bem do amigo. E desse modo também se diz que alguém tem ciúme da glória de Deus quando procura repelir segundo suas possibilidades o que é contra a honra ou a vontade de Deus, segundo o que diz o livro dos Reis: “Eu me consumo de ciúme pelo Senhor dos exércitos”; e sobre o que diz o Evangelho de João: “O zelo de tua casa me devorará”, diz a Glosa que “é devorado pelo bom zelo que se esforça em corrigir qualquer mal que vê; e, se não o pode, tolera-o gemendo”.
Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:
- O Apóstolo fala aqui do ciúme da inveja, que é, em verdade, causa de conflito, não contra a coisa amada, mas a favor dela e contra o que lhe serve de obstáculo.
- O bem é amado enquanto comunicável ao amante. Por isso, tudo o que impede a perfeição dessa comunicação torna-se odioso. Assim, o ciúme é causado pelo amor do bem. Acontece, porém, que por deficiência de bondade certos bens pequenos não podem ser possuídos integralmente por muitos simultaneamente. E o amor de tais bens causa o ciúme da inveja. Não propriamente os bens que integralmente podem ser possuídos por muitos. Assim, ninguém inveja outrem pelo conhecimento da verdade, que por muitos pode ser conhecida integralmente, a não ser, talvez, pela excelência de tal conhecimento.
- O fato de alguém ter ódio ao que é contrário ao amado procede do amor. Daí que o ciúme, propriamente falando, é afirmado como efeito, mais do amor que do ódio.
Suma Teológica I-II, Q28, A4
Fonte - sumateologica
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